terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Sugestão: curta-metragem tema "cultura do estupro"

Marccela Moreno, 27 anos. 
Salvador- Bahia mas mora no Rio de Janeiro. 

Qual o seu papel na realização de cinema? 

Marccela: Sou realizadora. Dirijo, escrevo e às vezes monto. Atualmente trabalho com produção numa produtora mas faço meus projetos pessoais como diretora. Passei agora em Tiradentes com um curta chamado “O mais barulhento silêncio” sobre cultura do estupro. Foi bem incrível trabalhar só com mulheres, ainda mais pela natureza do projeto! E essa temática da mulher no cinema me toca muito estou querendo fazer meu próximo filme sobre isso. 

Quando você escreveu “ O mais barulhento silêncio” você se inspirou em histórias reais ? 

Marccela: Uma das histórias do filme surgiu de uma experiência pessoal minha, é a do cara que tem filha e depois que eu percebi como que uma pessoa que tinha passado por um estupro de uma maneira que eu cheguei a me culpar, durante todo momento eu não me senti contente com a situação. Não foi tipo “ai transei me arrependi!” Eu não queria, tava esquisito e eu só fui me tocar disso uma semana depois. Eu comecei a conversar com as minhas amigas, chorar, eu comecei a ver que essa história era muito mais comum do que eu imaginava. Não é uma coisa facil de lidar, eu fui estuprada, e isso é uma coisa que a gente acha que nunca vai acontecer. É um estigma a palavra estupro. Então eu confrontei o cara que me disse aquelas coisas “ Se você é feminista porque você não se empodera ? Porque você foi na minha casa? Eu sou homem!” Então eu tive a ideia que iria fazer um filme sobre isso. Porque quando eu conversei com as minhas amigas, todas já tinham passado por isso e eu não sabia, eu percebi que a gente não fala sobre. E precisamos falar, não só uma pras outras mas eu quero que o máximo de homens assista. Eu queria fazer o filme com as mulher deitadas em uma cama, com a câmera de cima pra baixo, revelando a ótica do estuprador. Porque eu acredito que a sociedade inteira corrobora pra isso. A sociedade inteira que estupra uma mulher, simbólicamente. Tem quem comete o ato mas tem toda a fala que culpa a mulher. 

Como foi a produção do filme ? 

Marccela: O filme ele foi desenvolvido na oficina de documentário da PUC. Precisou passar por uma banca, o projeto foi contemplado e recebemos uma ajuda de custo para realizar o filme, em setembro de 2015. Filmamos em novembro de 2015 e ele ficou pronto em junho de 2016. Minha condição era que eu queria uma equipe só de mulheres. Não só pela delicadeza do tema, mas porque é uma declaração política mesmo. Não é que existam poucas mulheres fazendo filme ou trabalhando com cinema. Existe uma dificuldade maior pra gente acessar esse mercado, para ser vista e reconhecida. Uma professora sugeriu: acho que você devia usar atrizes para proteger essas mulheres, porque depois que for divulgado não teremos mais controle sobre isso. Vai que esses caras voltam atrás delas ?! Essa ideia foi ótima pois serviu pra criar essa outra estética bem diferente dentro do documentário. 


Como foi a repercussão do filme ?

Marcella: Ele está em época de carreira para festival. Nós estreamos ano passado no Festival Internacional de Salvador, no Panorama internacional Curtas de Cinema. Recentemente exibimos em Tiradentes-MG e agora estamos no processo de distribuição do filme. Além da gente já ter feito em várias ocupações de escolas e na ocupação do MINC. 

Como que é a aceitação das pessoas quando descobrem o tema do seu documentário ?
Marcella: A aceitação é muito boa, é um tema que as pessoas sentem a necessidade de debater esse tema mas não sabem como. Eu exibi muito para o público jovem, fomos em 5 colégios aqui no Rio. Também exibimos em um Congresso Internacional de violência doméstica e foi sempre muito calorosa a recepção. As pessoas se sentem muito tocadas. É um tema muito dificil as vezes dentro do cinema, o filme acaba entrando como um tema muito específico, no cinema é visto como um nicho, eu tenho a impressão as vezes que ele fala pra um segmento especifico só que é loucura isso, porque mais 3.5 bilhões de pessoas no mundo são mulheres e estão passíveis de serem estupradas logo, como é que isso configura um nicho?

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